sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A Patrulha por: Kika Coutinho!


Você pensa que conhece a polícia né? Acha que sabe quem são os chatos que vão te parar bem naquela blitz, bem naquela noite, bem naquela curva. Pensa que sabe quem faz a patrulha da nossa rua, da vizinhança, das famílias. Pensa? Então espere até ter filhos e conhecer a patrulha das mães.
Ah, aí você vai ver o que é chato. Tem a patrulha do parto normal, a da amamentação, a patrulha da comida, a patrulha da super Nanny, a que é contra a super Nanny, a patrulha do consumo, a da atenção e a patrulha da patrulha. Essa sou eu.
Já que é pra ser chata vou ser patrulha também. Vou infernizar as que patrulham. Porque, olha, não posso dar um Danoninho em paz, que a vizinha olha feio, porque minha filha acabou de fazer dois anos e eu ainda deveria dar uma maçã. Ah, mas se eu der a maçã e ela não gostar, nada de reclamar. Brigar nem pensar. A patrulha anti-castigo pode te prender. Porque não pode falar a palavra castigo. Também não pode mandar a criança parar de chorar, porque daí você está subestimando a dor dela. A-ham.
Tenho uma amiga que não conseguiu amamentar e tem medo de contar. Brinquei com ela que daqui a pouco tem que ir pro porão fazer mamadeira, todas as luzes apagadas, porque se a patrulha da amamentação te pega, tá perdida. E olha que quem escreve isso amamenta ex-clu-si-va-men-te há quase 6 meses a passa o dia como zumbi porque não quer dar mamadeira nas madrugadas. Mas essa sou eu, comigo mesmo, porque essa é minha decisão.
Claro que sou completamente a favor de disseminar informações, textos, reflexões, estudos. Claro que é importante amamentar. Mas cada mãe sabe onde aperta o calo, cada mãe tem o seu bico do seio, dá licença? Sinto – e será que sinto sozinha? – que há uma confusão entre a alegria de conversar em paz com os seus diferentes e a chatice de insistir e catequizar, aquele que não precisa ser catequizado. Porque isso não é uma religião. São mães, e filhos.
A amamentação é só um exemplo óbvio, mas a patrulha está aí. Nas mães que falam mal de outras mães. Nas mães que dizem que tem “mães” e “mães” sempre com aquele pingo de pimenta. Tem - e que bom, oras. Paremos de falar mal de quem trabalha, ou de quem não trabalha, ou de quem deixa ver tv, ou de quem não deixa, paremos, paz! Vamos juntar esforços pra ir ao cinema? Ao teatro? Fazer um pic nic no parque? Cada um leva o que gostar, tudo bem se for polvilho, tudo bem se for suco (de caixinha), tudo bem se for uva e maça desidratada.
Outro dia que não comprava orgânicos, e quase fui fuzilada. Nããão? Uma perguntou – com aquela indignação quase feliz, sabe?- Não - eu respondi, tímida, culpada, errada. Pois agora assumo, para o facebook todo ver, vou liberar meu perfil, escrever no meu status, publicar no twitter: NÃO, EU NÃO COMPRO ORGÂNICOS tá? É bom, é melhor, é que você quiser, mas eu não compro e, se fosse comprar, agora é que não comprava mesmo, pode passar o tomate com agrotóxicos, a alface, a batata é o pior? Manda! Não compro e quero ver alguém me obrigar, seguranças, seguranças socorro!
Eu deveria ter feito essa baixaria, já que tema é grave viu?
É grave porque costuma ter uma certa superioridade na crítica, um quê de raça ariana ao falar das mães comuns que, de certo, não sabem educar seus filhos.
Pois, aviso às patrulheiras: Vocês também não sabem. E, dia sim outro também, erramos. Senão no parto, na roupa, senão na roupa, na chupeta, senão na chupeta, no antialérgico. Somos mães e mais iguais do que pensamos, apesar das diferenças. Amo, admiro e aprendo com amigas, próximas, que fizeram escolhas tão distintas das minhas, escolhas tão nobres. É de uma alegria tão grande partilhar com elas os meus erros, os meus acertos, e ouvi-las também, de coração aberto, não me convencendo, mas me contando. Não me patrulhando, mas me ensinando.
Porque embora as opções sejam diferentes, o que sentimos é igual. O amor àquela criança fofa, aquele danadinho que rouba bala, e que finge que dormiu, e que foge do banho, enfim, é o amor de mãe e, com peitos e barrigas diferentes, isso, apenas isso, deveria nos unir.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Seu filho precisa mesmo ser tão feliz? FANTÁSTICO TEXTO DE CRIS LEÃO!


No meu tempo de criança, os pais eram pessoas esforçadas pelo sustento da família. Com ostentação ou sem, as pessoas eram mais preocupadas com o trabalho do que com ser feliz. Talvez por isso, já que filhos querem sempre fazer tudo diferente dos pais, agora todo mundo quer fazer o filho feliz, acima de tudo. Isso explica os valores escandalosos que se paga hoje em dia por uma festa de aniversário, a quantidade de brinquedos que as crianças têm e o número enorme de brasileiros indo para a Disney, às vezes para passar o final de semana. Claro que existe a culpa de muitos pais que trabalham demais e tentam compensar os filhos de alguma forma. Mas reflexo da culpa ou não, as crianças de agora nasceram para ser felizes. Será que está certo isso?

Vamos lembrar da nossa infância. Eu pelo menos, era muito feliz. Brincando com minha amiga que morava na casa ao lado, passávamos horas penteando o cabelo uma da outra, ou fazendo comidinha com as plantas do jardim. A maior aventura de que me recordo era brincar de pega-pega com o meu cachorro. Muito básico para você? Acontece que meu cachorro se transformava em uma onça que na verdade era uma Medusa, então em um simples olhar, ele poderia nos transformar em pedras. Por isso estávamos sempre equipadas com frascos vazios de shampoo cheios de água que explodiam como granadas quando caiam no chão. Pois é, criança vem com imaginação de berço. Por isso não precisa ir até Orlando ver os espetáculos de fogos de artifício para ficar maravilhada. Aliás, cá entre nós, já estive na Disney 3 vezes (2 em Orlando e 1 em Paris) e nunca vi tanta criança triste em um parque. Chorando, cansadas, angustiadas, com as mães e os familiares estressados. Claro, já viu o tamanho do lugar? E a quantidade de informação? E de sorrisos maquiados, brilhos, alegria explosiva? Gente, somos humanos. Isso não é um filme. É vida real. Não somos super heróis, nem princesas. Seu filho vai comer aquela salsicha processada junto com aquele pão velho de uma lanchonete linda com várias coisas girando, e pode ser que passe mal. E ai? Não! Não pode passar mal na Disney. Tem que curtir. Tem que ser feliz.

Eu trabalhei para a Disney traduzindo todos os materiais para português durante 4 anos. Sou encantada com a empresa e com o negócio em si, gosto de ir porque moro a 300 kilômetros de distância, temos o passe anual então é um programa barato em um lugar super organizado e bonito na maioria das vezes. Só estou usando de exemplo porque sei que é uma viagem muito cara para se fazer do Brasil mas isso não está impedindo cada vez mais brasileiros de fazerem. Minha pergunta usando este exemplo é: será que precisamos fazer tanto pelos nossos filhos? (Viagem de 8 horas de avião, filas intermináveis, kilômetros e mais kilômetros de parque de diversão) Eu suponho que não. E que está errado os pais sentirem que são responsáveis por fazer dos filhos, pessoas felizes. De onde tiramos essa ideia maluca?

O que eles precisam na verdade é de adultos para educá-los. E como adultos é claro que estamos ocupados. Com a família, com o trabalho, com as funções da casa. Se nessa lista se somar “a felicidade do(s) meu(s) filho(s)” alguém vai ficar muito sobrecarregado e frustado. Talvez seu filho, talvez você, talvez todo mundo. É chato tentar e não conseguir. Já pensou como sente os pais que pagaram a viagem em 6 vezes, passaram 8 horas na lata de sardinha, mais 1 hora em um brinquedo se o filho sair do brinquedo chorando?

Uma vez eu li o livro Encantador de Cães e fiquei fascinada com o raciocínio simples que o genial Cesar Millan escreve ali. Ele diz que cães só vão obedecer quem eles respeitam. E para ganhar respeito, é preciso ser a autoridade, é preciso colocar ordem antes do amor. Agora tente trocar a palavra “cães” por “filhos”, dá no mesmo. Autoridade é o contrário de democracia. Os pais não podem estar sempre abertos “o que querem comer, o que vamos fazer hoje, onde vamos passar as férias”. Entende como é complicado para a criança ouvir isso? Sentir que não existe uma ordem. Ela no auge dos seus 4 anos (ou por volta disso) é que precisa saber, querer e lidar com seus desejos. Meu Deus, está tudo errado ai. No meu tempo de criança, minha mãe interrompia a brincadeira trazendo uma bandeja com uma limonada fresca e biscoitos Maria. Sempre que lembro dessa cena (que aconteceu várias vezes) ela aparece iluminada como uma fada. O que eu sentia era: Nossa, ela é mágica! Como ela sabe que estamos com fome e com sede? Teria sido bem diferente se ela tivesse aparecido e perguntado: querem lanchar? vão querer sorvete ou pode ser biscoito mesmo? Estava pensando em fazer uma limonada, vocês vão beber? Ou é melhor eu trazer um suco de uva?

Infelizmente não estou escrevendo isso porque já aprendi a lição depois de ler o livro. Estou tentando aprender. E só estou escrevendo sobre isso porque descobri que tenho errado bastante. Desde que nos mudamos para Miami, fico com pena e compaixão por qualquer expressão de sofrimento que meus filhos tenham. Porque sei que é difícil para eles. E até esqueço que é difícil também para mim. Minha vida mudou completamente. Mas nem lembro disso. Só penso neles. A consequência? Minha filha de 4 anos cada dia faz uma coisa para me irritar. E então percebi que ela está fazendo isso porque eu estou irritando ela. E porque? Porque estou aberta todos os dias para ouvir, para entender o lado dela. Não parece errado à princípio, certo? Mas está errado. Criança precisa de adulto, alguém que tenha um norte, e ela acompanha o caminho, se frustando, entendendo seus limites e entendendo, porque não, que a vida não é um parque de diversões cheio de pessoas fantasiadas sorrindo para você o dia todo. A vida é para evoluir. Vamos tentar evoluir como pais antes que eles cresçam. Já pensou como deve ser frustante a adolescência de uma criança que sempre teve uma, duas, ou mais pessoas prontas a atender seus pedidos? Como deve ser difícil perder para um adulto que passou a infância sempre ganhando? Nem que a custa de 12 sofridas prestações para os pais?

Educar dá mais trabalho do que servir o sorvete antes do jantar, já que seu filho está querendo tanto. Educar envolve mais compromisso do que pagar as 6 parcelas da viagem mágica. Educar é coisa de gente grande. Deve ser por isso que crianças não podem ter filhos. Porque filhos precisam de adultos. Parece que esse é o grande problema da minha geração, não queremos ser adultos. Outro dia vi um post sobre a crise dos 25 anos. Levei o maior susto! A maioria das pessoas que conheço estão nessa crise aos 35 (ou mais). Está na hora de dar esse passo. Parar de focar só na diversão e na felicidade e evoluir, amadurecer. Todo grande passo na vida acontece quando a gente faz aquilo que é desconfortável. Já aprendemos muito sobre diversão e entretenimento, que tal agora aprender a viver?

Por Cris Leão